Ensaio introdutório acerca de transtornos maníaco-depressivos.

Autor: Nelson Menon.

Imagine como você se sentiria, caro leitor, levando uma vida que em cada nascer do sol, cada manhã, cada despertar, o seu sentimento mais íntimo é de que não houvesse mais vida, ou seja, o seu mais profundo desejo é estar morto. No primeiro instante do dia, ao abrir os olhos, já se depara com a decepção de estar vivo. Uma vida que não foi escolhida por você, pois se houvesse a escolha, com certeza você teria escolhido a “não-vida”. Você não encontra sentido na sua vida – como a maioria das pessoas – mas diferenciando-se dessas, você não consegue continuar, você não procura um sentido, você por vezes acredita na ausênsia de um sentido. Você se depara neste muro de lamentações chamado “busca da felicidade” e não consegue compreendê-lo, talvez por não acreditar na felicidade.

Imagine como você se sentiria, caro leitor, levando uma vida que em cada pôr-do-sol, cada noite, cada adormecer, a sua mais preciosa ambição é a de não haver outra manhã, ou seja, a sua mais intrigante vontade é dormir para não mais acordar. Sim, essa é a tão desejada morte dos velhinhos, com os netinhos pulando de manhã sobre cama. Pode ser vista também como a morte dos covardes, aqueles que desejam a morte à todo instante, mas têm medo de encontrá-la. Ninguém quer morrer sofrendo, sentindo dor, agonia ou extremo pavor. Qual covarde atiraria na própria cabeça ? Qual covarde pularia do topo de um prédio ? Qual covarde teria a frieza de preparar sua própria forca ? Mas você não é um covarde qualquer, você é um covarde demasiado paradoxal, você é um covarde que tem medo da vida e também tem medo da morte, diria até que é um covarde completo.

Você tem braços e pernas, isso é motivo de satisfação ? Talvez para um amputado. Você tem saúde e uma família que te ama, isso é motivo para contemplar a vida ? Talvez para um órfão enfermo. Torna-se impossível satisfazer-se plenamente. A insatisfação é uma condição inerente para evolução natural. Aquele que se satisfaz, cria raízes. Viver insatisfeito é o dever de um ser vivo em processo de evolução. Existiria uma múltipla escolha entre evolução e satisfação ? Para tentar contornar essa pergunta, você imagina a vida como sendo uma enorme praia e cada grão de areia sendo um curto espaço de tempo. Então existem momentos de satisfação e momentos de evolução. Esse é um artifício para quem busca momentos instantâneos de felicidade. Nestes curtos espaços de tempo, você acredita na felicidade. Nestes curtos espaços de tempo, você abdica de todos os seus pensamentos e vive um momento de plena satisfação. Alguns conseguem fazer esse grão de areia se tornar uma rocha inteira, alguns poucos até fazem desse grão de areia uma gigantesca pedreira. Para você, ele é sempre um grão de areia.

Entre a decepção de acordar e a esperança de encontrar a morte ao adormecer, existe algo que você, caro leitor, imagina como um bizarro pesadelo. Você faz parte de um sistema completamente desajustado, você convive e se relaciona com pessoas que não consegue manter laço algum, enxerga o mundo como uma sucata de conceitos e preconceitos, acredita que a tresvaloração de todos os valores tornaria para você, caro leitor, este pesadelo suportável. Você não sente mais sede ou fome, apenas se hidrata e se alimenta quase que involuntariamente. Você não sente mais apetite sexual, não tem mais a vontade/necessidade de procurar parceiras e satisfazer seus desejos carnais, passou a enxergar isso como um ato um tanto quanto animalesco, algo parecido com um acasalamento entre seres humanos. Seus conceitos, seus princípios, não condizem com o do seu tempo, pode ser que tenha nascido cedo demais, ou tarde demais. Você se sente irreal num mundo que mais parece uma obra surrealista. Mas afinal, o que é real ? A realidade é invisível aos olhos, até a mais lúcida das mentes se confunde com a turva imagem das convicções.

4 Respostas para “Ensaio introdutório acerca de transtornos maníaco-depressivos.”

  1. Excelente, Menon-Nietzsche.

    Lembrando Goethe:

    “A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela… tudo isso, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo”.

  2. para de ser emo.

    obrigado

  3. Sim,existe sim, caro leitor, uma múltipla escolha entre evolução e satisfação, mas isso vai depender da SERENIDADE de cada um em aceitar as coisas que não pode mudar, da coragem de mudar as que você pode mudar, mas principalmente da sabedoria para distinguir a diferença.
    E para procurar o sentido da vida, é necessário antes que se compreenda O VIVER, pois são as ilusões as resposnsáveis pelas angústias e sofrimentos.
    E para evoluir, caro leitor, a insatisfação não é um dever, e sim inteligência e auto-crítica.

  4. Será ??

Deixe uma resposta